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Vitor Silva Cravo - Extéril

Inauguração / Opening

17 - 04 - 2004

Extéril

19 h Sábado / 7 pm Saturday

VÍTOR SILVA CRAVO

"Esgoteira"


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MOLDAR O TEMPO

Como em anteriores estratégias de ocupação da Galeria Extéril, Vitor Cravo apresenta-nos mais uma vez uma montagem de imagens e de objectos, cuja aparente disparidade se organiza segundo um modelo especulativo de livres associações: a imagem de um texto, datado ou, provavelmente, antidatado de 1989, uma caixa branca onde se exibem 6 fragmentos, negros e brilhantes, três desenhos, grafite sobre papel, onde se inscrevem os contornos de algumas formas incertas. Trabalhos realizados há mais de 10 anos e nunca antes mostrados, fazendo parte de um conjunto mais vasto de outros projectos e imagens.

A montagem obedece a uma categorização variada de coisas e de imagens, a uma combinação sucinta de formas e de expressões, de volumes e de superfícies, de opacidades e de películas transparentes, de manchas densas e de traçados imperceptíveis. No seu conjunto, são poucos os objectos, poucas as coisas a mostrar. Mas mostrar este pouco significa considerar um regime de sobriedade onde não há lugar ao efeito mas sim o propósito de as mostrar. Também não são gestos de encenação aquilo que se exibe, apesar da natureza disjuntiva e desconexa das «coisas» reveladas.

A «contornar» os objectos, os desenhos e as imagens, o texto com os seus inúmeros comentários e apontamentos, confunde a eventual pretensão em se constituir a «prova» do projecto. A ambiguidade existente entre as folhas desenhadas e a caixa de fragmentos negros (serão restos de um vaso cerâmico?), a estranheza entre a «ordenação» e a subtileza das silhuetas traçadas que «caem» do plano do desenho, a correspondência entre as formas recortadas e o entrelaçar dos moldes que sugerem o movimento de «queda» e a reconstituição parcelar, aproximada, do acidente ou do choque, suscitam paradoxalmente a imediata confrontação com o texto. Neste sentido, o texto, feito à imagem e semelhança dos fragmentos, mima e imita a força de uma disparidade essencial, embora concertada, existente entre os objectos, as expressões e o espaço. O choque visual dos elementos mostrados reiteram a estrutura programática das palavras tornadas visíveis e, por isso mesmo, equiparáveis aos desenhos e aos objectos. O enigma daquilo que se vê corresponde ao enigma daquilo que se não se sabe ler e interpretar.

Neste mesmo espaço, texto, imagens e objectos encontram a relação comum e talvez in-comunicável das suas formas sensíveis. O intercâmbio entre o visível e o legível, entre o sensível e o inteligível constitui-se o habitáculo permeável da casa dentro da casa, a zona de contacto entre a intimidade e a civilidade urbana da rua, ou seja, o espaço de um lugar cujas paredes se fecham para se abrirem ao comum, à experiência comum do ver e do compreender: à experiência comum do irreconhecível. Através do texto indecifrável, o espaço torna-se um limiar de conexão e de convivência, pelo simples facto de ele se constituir, na relação com restantes imagens, mais uma hipótese figural: isto é, o plano de uma evocação instantânea da perplexidade. Daí a evidência dos fragmentos, o sentir da peça quebrada, o entendimento da sua possível formulação, enquanto acidente ou acontecimento, capaz de alterar a percepção do momento, capaz de modificar e resgatar a compreensão do presente. Por isso, a pregnância do papel, a dureza dos «restos», a transparência dos signos e a transformação dos fragmentos, mas também, a deformação, a alteração, a transposição daquilo que, com dificuldade, a imagem do texto procura completar.

Para Vítor Cravo, Esgoteira seria o nome de um procedimento capaz de caracterizar a partilha do sensível, o nome de um «instrumento» que nos permitisse compreender o espaço como relação sujeita à exposição e à intensificação dos seus elementos constituintes. E o que é este espaço senão a memória de acções e de movimentos, a memória de uma vida das formas que o habitam? A casa molda-se numa forma entretecida pelas sua inúmeras partes: a porta, a janela, o tecto, as paredes, o chão, são funções de uma intensificação orientada das suas conexões, são limiares e enquadramentos da memória por onde se eleva o sentido do tempo e a sua condição de permanência e transformação. E o que é o tempo senão este anacronismo actual existente entre as causas e as consequências da acção? O que se passa no espaço para que uma imagem se construa, para que uma imagem seja ao mesmo tempo necessária e arbitrária, visível e incompreensível, legível e inacessível? O que é que há de comum entre o espaço das imagens e as imagens do espaço que, por alguns momentos, se afiguram no horizonte do nosso olhar? O que é que as imagens pensam de nós, que as desejamos, que as fazemos e as olhamos?

O tempo esgota-se.  Esgoteira do tempo. O tempo declina-se com o choque, com aquilo que cai, com aquilo que se fragmenta e se espalha, extensamente, por toda a parte, em todo o lugar. O tempo declina-se na forma da casa, na maneira de habitar o espaço, na maneira de intensificar o espaço comum. As imagens têm qualquer coisa em comum. Não será esta uma estranha coincidência entre a sua partilha sensível e o seu devir colectivo?

Benardo Pessoa

Abril 2004

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Curadoria de
Curated by
Teixeira Barbosa
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